UNIVERSIDADES SÉNIORES: ACONTECIMENTOS, TRABALHOS, ETC.

05
Mar 15

 

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Estórias e Contos Tradicionais Portugueses

Conto “O senhor Filipe”

 

O senhor Filipe contava perto de oitenta anos, nunca foi à escola nem saiu da sua terra. Onde se sente bem é na sua casa e não quer ouvir falar de gravadores nem de entrevistas, diz que são artes do diabo. Nascera e vivera sempre em Dornes, bem juntinho ao rio Zêzere, que adora, e quando a trabalho, bem… .

     Com o meu amigo e professor José Vaz a servir-me de cicerone, fomos procurá-lo na sua casa humilde, de paredes toscas sem pinturas e com uma rede de malha larga a cobrir-lhe a frontaria.

   -Oh, da casa! Está por aí gente ou não?

   -Lá vai, lá vai.

     O senhor Filipe devia encontrar-se por muito perto, tão depressa rodou a aldraba e abriu a porta.

   -Olha o senhor professor!

   -Então, como vai isso, há por aí peixe ou não?

   -Tem caído muito pouco, mas arranja-se sempre qualquer coisa.

Entrem, entrem.

   -Trago aqui um amigo.

   -Nunca cá veio esse senhor, pois não?

   -Não, não, ele é lisboeta.

   -Ah, é de Lisboa, “atão” e como é que o conheceu?

   -Ele escreve livros.

   Oh, meu senhor, não me venha para cá com essas coisas, já sabe que eu me arreganho com isso.

   -Ah! Ah! Não! Não se aflija, nós vimos apenas pelo peixe. O melhor é irmos ver dele, não acha?

   -Como quiser, podem sentar-se aí junto dessa mesa.

   E enquanto o senhor Filipe foi à cozinha combinar com a mulher:

   -Vá Sá Flores, tire lá o gravador e ponha-o a funcionar aqui em cima da mesa.

   -Acha que sim, acha que vai correr bem?

   -Vá deixe-se lá de tretas, tire lá isso depressa antes que ele dê pela macacada.

     O professor Vaz não era do Concelho, mas, conhecedor e interessado pela antropologia, conhecia as pessoas e aqueles sítios melhor que a maioria dos ferreirenses.

   -Arranja-se uns bocadinhos de achigã e de carpa, e também umas bogazinhas, se quiserem.

   -E broa e vinho caseiro, há?

   -Sim, também se arranja.

   -Então venha lá isso tudo depressinha.

   A mulher tinha vindo com ele e, ao ouvir a decisão do Vaz, dirigiu-se para a cozinha arrastando os tamancos pelo soalho.

     Eu era um mero espectador, conhecia a estratégia, mas era o meu amigo quem dirigia as operações para fazermos uma entrevista ao senhor Filipe, sem que ele se apercebesse. Segundo o meu amigo a experiência dele era demasiado bela para se perder, ficar diluída no tempo.

     O gravador já estava operacional, era pequeno, tinha micro incorporado e captava a voz a alguma distância, só gravando quando se falava.

   -Então mas o peixe não tem caído, é?

   -Tem´tado ruim, tem, anda um homem por lá o dia todo e vem de mãos a abanar.

   -Oh tio Filipe, diga lá a este lisboeta com que idade é que começou a pescar e como é que se fazia a pesca nesse tempo.

   -Bem, a idade, tinha para aí os meus sete anos, e a pesca nessa altura era com cordéis, atava-se um anzol com uma minhoca na ponta de cada um, amarravam-se uns aos outros e atiravam-se para a água sempre com a ponta presa na nossa mão.

   -E apanhavam alguma coisa?

   -Oh, nem queria saber, mais do que hoje! Saía cá cada barbo e cada enguia que era uma maravilha! Mas onde se apanhava mais era com os caneiros.

   -Com é que era isso?

   -Os caneiros eram feitos com pinheiros entrançados uns nos outros, o que se chamava vergame, tinham para aí dois metros e colocavam-se nas golas de água nos açudes, ao fundo, à saída, punha-se a barrela, que era o género de uma esteira comprida feita com vimes e arame cheia de pequenos buracos para deixar passar a água. Conforme o peixe e as enguias vinham na água, entravam nos caneiros e ficavam em seco em cima da barrela, que era colocada ligeiramente inclinada para o pescador ir para dentro dum saco que estava preso ao fundo.

   -E enchiam o saco?

   -Bem, era conforme, quando havia cheias enchia-se até mais do que um. Aquilo era um regalo, apanhavam-se enguias mais grossas do que o meu pulso.

     Um dia, o meu pai e um tio meu foram ao caneiro ver se por lá estava alguma coisa, e ao enxergarem o saco cheio ficaram de tal maneira contentes que enquanto o meu tio desamarrava aquele saco o meu pai pegou no barquito e veio a casa buscar outro. Lá se demorou mais um bocadinho e quando voltou estava o meu tio acravado de água até ao pescoço, a gritar por socorro, mas não largava o saco.

   -Antes queria morrer afogado do que perder a pescaria!

   -Pois, sabe, é que havia semanas que não se comia outra coisa.

O tio Filipe, contrariamente ao que eu pensava, falava muito e desinibidamente. O Vaz tinha-me dito que era para onde lhe dava, tanto falava como ficava em silêncio. Ainda bem que ele estava em dia sim, pois as suas histórias eram na verdade interessantes e atraentes.

   -Agora já não se vêem barbos aí pelo rio, pois não?

   -Não, há nada, não há nada, essa bicharada que puseram para aí dá cabo disso tudo.

   -Os lagostins, é?

   -Oh, isso é uma peste, roem tudo. A gente hoje põe a rede, e amanhã se chegarmos lá um pouco mais tarde só encontramos espinhas, com raio que os partissem!

   -Pronto, está aqui o peixe, chega ou querem mais?

   -Por agora deve dar e depois logo se vê.

   E estava uma maravilha. A casa do tio Filipe não era nem tasca nem restaurante, ali faziam-se apenas uns petiscos para os amigos, embora se pagasse.

   -Oh, minha senhora, está uma delícia, como é que faz isto?

   -Como é que faço? Ponho o peixe numa calda de vinho e outros temperos e depois frito.

   -Pois é, Sá Flores, não sei está a perceber.

   -Sim, sim, também já aprendeu, segredos são segredos… Mas, minha senhora, dou-lhe os meus sinceros parabéns, nunca comi coisa igual.

     E na verdade assim era. O Vaz já me tinha falado, mas ali assim ao natural era tudo bem diferente.

   -Então, ó senhor Filipe, e só pescava, não fazia mais nada?

   -Não fazia nada, isso que era bom! Guardava o gado e andava ao ouro no rio.

   -Aqui no rio Zêzere!

   -Sim, sim, mesmo aqui em baixo, isso andava por ali pessoal à brava. Eu ainda era pequeno, mas o meu pai obrigava-me a ir com ele para apanhar areia para dentro das grades.

   -Areia para dentro das grades, mas como é que era isso?

   -Pois, a gente tinha tabuleiros com umas ripas finas pregadas no fundo, que tinham por baixo uma caixa. Conforme a gente ia com umas concazinhas de cortiça rapando a areia à volta das pedras e no fundo do rio, e as ia despejando para dentro dos tabuleiros, a areia fina caía para dentro dessa caixa, enquanto a mais grossa rebolava pelas ripas abaixo e ia novamente para a água ou para o chão, conforme onde tivesse o tabuleiro. Depois tirava-se a areia da caixa para dentro duma bacia e bandejava-se, bandejava-se com ela pela água para o ouro ir para o fundo e iam mandando fora a areia até ficar poucachinha no fundo, depois iam com um bocadinho de azougo para agarrar o ouro que se encontrasse misturado naquele restinho de areia.

   -E apanhavam muito?

   -Bem, quando havia uma semana que se apanhava cinco ou seis gramas já se ganhava bom dinheiro.

   - E esse ouro existia aqui ou como é que era?

   -Uns diziam que vinha pelo rio abaixo, outro diziam que vinha aqui duma conheira e que conforme a água ia passando arrastava aquilo.

   -E depois vendiam o ouro a quem?

   -Bem, mas antes o meu pai trazia o azougo para casa e punha-o dentro de uma colher de sopa junto ao lume para o ouro se separar, e só depois é que o vendia a uns senhores que apareciam por aí.

   -Lembra-se quanto é que isso rendia, mais ou menos?

   -Não sei, não faço ideia, lembro-me é do meu pai falar que aí para baixo, p’a Constância, um senhor apanhou um bocado de ouro do tamanho de uma castanha pequena e que nunca mais precisou de trabalhar. Mas com a gente isso nunca aconteceu, e tínhamos de andar por aí na agricultura e nas cavacas para ganharmos meio alqueire de milho, ou meia quarta de azeite.

   -Isso era conforme o trabalho. Por exemplo, quando andámos ali a fazer a ponte do Vale da Ursa, aí arrecebia-se.

   -O quê, o senhor andou na construção dessa ponte?

   -Olarolas, passei lá frio de rapar. Trabalhava-se de noite e de dia, aquilo nunca parava. Trouxeram para ali uns geradores e o pessoal por ali andava a trabalhar nas pedreiras, dentro dos buracos dos pilares, onde era preciso. Muitas vezes lá dormi de cócoras, não me podia deitar, quando não adormecia, e o empregado andava sempre de lanterna na mão à caça da gente. Um dia o frio era tanto que as ferramentas, nos caíam das mãos dormentes. Então, eu com mais camaradas fizemos uma fogueira e estávamos a aquecer-nos. Cum raio, vem de lá o encarregado e, com trinta diabos, quase tivemos de nos ajoelhar para não perdemos a jorna, já pode ver como era a nossa miséria naquele tempo.

   -Olhe lá, sabe porque é que aquilo ali se chama Vale da Ursa?

   -Eu tenho uma vaga ideia de ouvir dizer ao meu pai que existiu por ali uma ursa a quem uma velhota dava comer, mas não sei.

   -E aqui nas festas, como era isso?

   -Oh, como era isso, advertíamos, e nas danças havia quase sempre porrada.

   -Lembra-se de alguma cena dessas?

   -Não me lembro eu doutra coisa! Havia grande rivalidade entre o pessoal daqui e do Beco. Um dia, durante a festa de S. João, que ainda hoje se faz, mataram aí um rapaz de lá, ficando a marca do sangue dele durante muito tempo aí nas paredes da capela.

   -Mas como é que o mataram?

   -Com os paus, naquele tempo todo o homem usava um pau ferrado na ponta. Quando se ia para um balho ficava sempre o mais novo a aguardá-los, colocavam-se atrás de uma porta, e quando havia zanga aí ia o pessoal agarrar neles para dar e levar, e às vezes o pau até fazia fumo e zoava entre os dedos da mão e por cima das nossas cabeças.

   -E o rio, lembra-se como era o rio nesse tempo?

   -Era um rio livre, de água corrente, cheio de pedras lisas e roliças de todos os tamanhos.

   -E aqui nas terras ao pé dele o que é que havia?

     -Muita agricultura, muita fruta e muitos choupos e salgueiros, onde no Verão se dormiam umas boas sestas a ouvir a passarada que os cobriam de ninhos.

   -E azenhas, havia por aí?

   -Havia muitas, a que eu melhor me lembro era uma que ficava mais ou menos na direcção do cemitério, trabalhava com três mós ao mesmo tempo, o pessoal via-se e desejava-se para chegar com os sacos da farinha cá acima.

   -Então, mas não havia carros nem burros nessa altura?

   -Burros haviam, agora carros, segundo falava o meu pai, dizia-se nesse tempo que haviam de vir umas máquinas com umas rodas e motor, que haviam de passar por onde passavam os burros e levar num só vez o que eles carregavam numa semana.

   -E sobre a Senhora do Pranto, lembra-se de alguma história?

   -Contavam-se muitas, diziam….

   O tempo ia correndo como setas, e embora as perguntas fossem inesgotáveis, nós não queríamos abusar do tio Filipe, que falava, falava, comportando-se excepcionalmente.

   -Senhor Filipe, sabe o que é isto?

   -Ora deixe cá ver, parece-me, é capaz de ser uma caixa do tabaco.

   -Enganou-se, é um rádio, o senhor gosta de música?

   -Até gosto.

   -Então ouça lá.

   -Mas isso…

   -Homem, mas és tu que estás lá, és tu tal e qual que estás dentro!

   -Mas ó senhor professor, carraio é que o senhor fez para aí, mas olhe que até não está nada mal!

   Pois não, não, olha que até pareces mais bonito!

   Acha que sim? Pois bem, aqui dentro vai tudo o que o senhor Filipe esteve a contar.

   -Mas para quê para que é que querem isso, se isso não vale nada, é para se rirem das minhas maluquices, não é?

   -Não senhor, nada disso, estas coisas são para agora aqui o meu amigo trabalhar para fazer um livro.

   -Um livro para quê, se eu não sei ler!

   -Mas lêem os seus netos.

   -Ah, se é isso, ‘tá bem.

 

Ditos, Ditados e Provérbios Portugueses

 

Disse-me com quem andas, dir-te-ei quem és.

 

Sugestão de Culinária

 

Estrelas do Zêzere

 

Elvira Pires Godinho, da Quinta do Cerquito, obteve o segundo prémio no concurso promovido pela Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, em 1970, com esta receita.

 

Em setecentos gramas de açúcar em ponto pérola deitam-se cento e quarenta gramas de puré de feijão, deixando ferver um pouco; juntam-se, em seguida, cento e setenta gramas de miolo de amêndoa e as gemas de treze ovos. Depois de cozido este preparado constitui o recheio para cerca de quarenta bolos.

Prepara-se, entretanto a massa que é o suporte destas estrelas: amassam-se duzentos gramas de farinha com um pouco de sal e azeite, tal como a massa tenra e tende-se muito fina para forrar as formas.

Levam-se a forno não muito quente; criam uma crosta mais dura o interior do recheio e o leve sabor a feijão e amêndoa torna-se bolos muito especiais.

 

 Poesia

 

Ferreira de tanto amada

senhora de tanto ser

eu bem te queria ver

Donzela mais adornada.

 

Queria ver-te mais cantada

mais liberta de fadiga

não seres tanto formiga

mas também linda cigarra.

 

Queria ver-te sorrindo

mais senhora, melhor mãe,

ter em ti saudável trem

onde se possa saber

o quanto se pode ler

nas folhas que vão caindo!

                                                   Sá Flores

 

Sugestão de Fim de Semana / O que visitar na minha Cidade?

 

No próximo dia 7 de março, irá realizar-se a 7ª Conferência de Proteção Civil que terá lugar no Centro Cultural.

A Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere preparou, como já é tradição, várias atividades para assinalar o mês da Proteção Civil. Apresentações temáticas, simulacros, ações de sensibilização, a conferência anual e até uma caminhada são alguns destaques deste ano.

Conheça as atividades programadas no cartaz do evento.

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 Foto da Semana

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 Universidade Sénior numa visita ao Centro Geodésico de Portugal

publicado por IDADE MAIOR às 16:41

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