UNIVERSIDADES SÉNIORES: ACONTECIMENTOS, TRABALHOS, ETC.

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Mar 15

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Que memórias se guardam quando se tem mais de 100 anos?

Por Andreia Sanches (texto) e Miguel Manso (fotografia)

Estas são conversas sobre o passado e o presente com quem já viveu tanto que chega a achar que é milagre. Investigadores encontram pontos em comum.

 

“Quantos anos tenho? Humm... 70. Ou 78...” Silêncio. “Oh, mais um ano, menos um ano, o que é que isso interessa?” Manuel Rafael dos Santos fala alto, movimenta as mãos com teatralidade, gestos rápidos. A filha ri-se. Aproxima-se da orelha dele e dá-lhe a notícia: “Tem 109!” E ele salta da poltrona como se tivesse sido atingido pela maior das ofensas. “Não tenho nada!”

A filha, Maria da Conceição, de 65 anos, ri-se à gargalhada. O filho, António, de 80, também. Todos riem na sala de Manuel Rafael dos Santos. E ele fica satisfeitíssimo por continuar a animar as pessoas assim. Sempre foi um homem de festa. Tem 109, sabe disso. Porventura, às vezes esquece-se.

Na sua “mocidade”, havia bailes “todos os 15 dias”, ora na casa de um, ora na casa de outro. Tocava harmónio, bebia vinho com “a rapaziada” — “era até cair”, conta (o filho acha que ele exagera nesta parte), até que um dia decidiu que não beberia mais, porque os copos já não lhe davam só alegria, também o punham maldisposto.

E já que se fala de festa: “Que é feito da rapaziada agora?” Já não dançam? Já não bebem? “Não dou notícia de brincarem. O pessoal está diferente como a noite do dia.” E os velhos amigos, onde estão? A filha diz que ele nem sempre tem noção de que não viveram tanto tempo quanto ele, morreram. Ele tem outra teoria. “Querem lá saber de mim...” Pois se não aparecem.

Não é de alimentar tristezas. Também já não quer saber deles.

Manuel foi um dos quatro centenários que o PÚBLICO visitou nos últimos dias, em diferentes pontos do país. Aquele que é o grupo etário que regista maior crescimento demográfico na maioria dos países desenvolvidos suscita a curiosidade do público em geral e da comunidade científica. “Sabemos de alguns factores que afectam a longevidade humana. São factores bem conhecidos dos médicos, como o exercício, a alimentação, etc. No entanto, os centenários são particularmente interessantes porque muitos não têm um estilo de vida saudável. Ou seja, factores genéticos (e alguma sorte) são importantes”, diz o geneticista português João Pedro de Magalhães, investigador do Institute of Integrative Biology, na Universidade de Liverpool.

Emília Correia nasceu no Colmeal da Torre, concelho de Belmonte, a 6 de Dezembro de 1907. Vive num lar em S. Pedro de Alva. 

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Enquanto em todo o mundo há cientistas, como João Pedro Magalhães, a estudar o envelhecimento, o que dizem os centenários? Como se relacionam eles com isto de viver tanto tempo?

Rafael Manuel dos Santos nasceu a 23 de Dezembro de 1905, era rei D. Carlos I, na aldeia de Roda, freguesia de Asseiceira, concelho de Tomar. Ainda não tinha nove anos quando a I Grande Guerra estalou, tinha 26 quando Salazar foi empossado no cargo de presidente do Ministério e 68 quando se deu o 25 de Abril. Já viveu tanto que o normal, diz, seria que o seu tempo já tivesse acabado. “Eu não faço milagres. Quem faz milagres é Deus. Ele é que sabe.”

Em Dezembro, foi notícia nos jornais. “Se não é o homem mais velho de Portugal é certamente um dos mais velhos”, disse à Lusa Carlos Rodrigues, o presidente da junta da Asseiceira, que lhe organizou uma festa de anos. Na semana passada, encontrámo-lo na casa para onde foi há 80 anos quando por volta dos 27 ou 28 deixou de viver com os pais e se casou. Fica numa pequena aldeia vizinha de Roda, alguns minutos de carro.

Aos 87, enviuvou, e desde então vive sozinho. Aos 100 ainda andava com uma enxada na terra, hoje já só vai apanhar umas laranjas. Veste-se, cuida da sua higiene, às vezes caminha até ao café que fica no fim da estrada que atravessa a aldeia — “Não é pelo café, é mais para passear”, explica. Movimenta-se sem bengala, aliás, irrita-se (sempre com um sorriso disfarçado) quando se fala de bengalas. “Bengala?! Deram-me uma, está ali encostada à parede. Quero lá usar bengala! Um homem com bengala, só tendo 100 anos!”

As refeições são na casa da filha, que mora perto. Só tem dois dentes mas não admite que lhe cortem as couves do cozido à portuguesa aos bocados como se não fosse capaz de as mastigar. E quando, há tempos, Maria da Conceição teve a ideia de o levar a um centro de dia, para ver se ele gostava — pois se está sempre a queixar-se da pacatez da aldeia, “ó menina, isto está tudo morto, é de mais” —, perdeu a paciência. Zangou-se. Recusa estar num sítio de velhos. Antes o tédio.

 

A memória do tempo

Recentemente, esteve nesta sala “uma cientista de Lisboa” que lhe fez uns exames e disse que ele tinha “um metabolismo de 80 anos”, diz a filha orgulhosa. O que fez para isso? Ele não sabe dizer. Fumou, ainda que pouco. Come de tudo. A filha acredita que o segredo foi “ralar-se pouco”.

“Temos de talhar a vida com calma”, diz ele.

Não pára de conversar. Não são as grandes guerras (conseguiu livrar-se de tropa), ou o Salazar (“parece que era de gancho”) ou o 25 de Abril que lhe interessam contar. E, sobre o tempo presente, a grande perplexidade de Manuel é mesmo esta: “Não há divertimento! Não há divertimento!” Do resto, dos dias que correm, não tem muita informação — não tem problemas de saúde, não toma medicamentos, mas a audição é fraca (“estou mouco como o catano”), por isso, apesar de a televisão estar muitas vezes ligada, não a ouve. Aquilo de que gosta de falar pertence a outro tempo: ir à escola para aprender a ler e a escrever com o professor Oliveira, contra quem a turma se virou um dia por ele querer bater num; o trabalho nas terras do pai; os bailes e as raparigas “que só queriam namoro”; o harmónio que deixou de tocar quando se casou; aquela altura em que foi para o Entroncamento fazer serviços de carpintaria para CP... Era jovem, muito jovem.

O fenómeno é conhecido. “Há uma quantidade desproporcional de memórias entre aproximadamente os 10 e os 30 anos”, explica Constança Paúl, catedrática do Instituto de Ciência Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto (ICBAS/UP), e presidente da divisão de Gerontologia Aplicada da Associação Internacional de Psicologia Aplicada. Afinal, prossegue, é nessa janela temporal que se concentram “as tarefas fundamentais relativas à educação, o casamento, o trabalho”, tarefas que acabam por constituir o “quadro de referência cognitivo-afectiva a partir do qual a pessoa orienta a sua vida, a relação com os outros, etc”.

Por outro lado, é conhecido que “alguns tipos de memória” entram em declínio com a idade — por exemplo, declina menos a “memória semântica” (factos, conceitos, vocabulário sem referência espácio-temporal) e mais a chamada “memória episódica” (acontecimentos com referência ao espaço e ao tempo). Há várias explicações para o declínio, “nomeadamente de índole neurobiológica”: dificuldades de atenção, de velocidade de processamento de informação; problemas de visão e audição, que têm implicações no desempenho mnésico; patologias.

Constança Paúl faz parte da equipa do PT100 — Estudo dos Centenários do Porto, um projecto desenvolvido pelo ICBAS/UP que envolveu, desde 2013, um total de 140 centenários. Já iremos a alguns dos resultados, relatados ao PÚBLICO em resposta por email, por três investigadores do PT100. Mas ainda a propósito da relação destas pessoas com o passado e o presente, Óscar Ribeiro, coordenador do estudo, acrescenta o papel do “futuro”: “Numa das entrevistas que fiz com uma das colaboradoras do projecto [101 anos], precisamente um dos casos que consideramos de ‘sucesso’ (níveis elevados de funcionamento cognitivo, funcional e de saúde), um dos aspectos que mais nos despertaram curiosidade foi o modo como o seu discurso tinha transversalmente orientação de futuro — seja no modo como descrevia tudo o que ainda tinha que fazer, como a nossa presença estava a alterar os seus planos para aquela tarde, seja no modo como se despediu com um até para o ano, fazendo questão de nos receber por essa altura.”

O investigador do ICBAS/UP admite que “esta orientação para o futuro pode ser uma variável psicológica de potencial influência na longevidade excepcional, nomeadamente na dita ‘bem sucedida’”. Algo a estudar proximamente, acrescenta.

 

"Que Deus vos dê saúde"

 

Benvinda Marques, 109 anos, não parece ter grandes planos para o futuro. Vive no lar da Santa Casa da Misericórdia de Alfeizerão, concelho de Alcobaça, desde 2012. Recorda os tempos em que teve uma mercearia em Lisboa, “à sociedade com um cunhado”, e diz: “Vendia de tudo um pouco, do arroz à massa, ao grão, ao feijão, mas havia muitas caloteiras. E eu não sabia assentar... São vidas que se passam.”

Helena Neto, directora técnica da instituição, corrige-a: “Ainda está a passar.” Mas ela encolhe os ombros. “Já passei o que tinha a passar.”

publicado por IDADE MAIOR às 11:01

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Relatório da Global Alliance for the Rights of Older People – In our own words: what older people say about discrimination and human rights in older age

Aborda o tema do idadismo, discriminação e negação dos direitos humanos a que estão sujeitas as pessoas idosas. O relatório teve por base testemunhos recolhidos em diferentes países, onde se inclui Portugal.

 

In-Our-Own-Words-2015.pdf

 

 

 

 

publicado por IDADE MAIOR às 10:41

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