UNIVERSIDADES SÉNIORES: ACONTECIMENTOS, TRABALHOS, ETC.

03
Jul 15

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Estórias e Contos Tradicionais Portugueses

 

Conto “O Negócio”

 

     Os Outeiros formava conjuntamente com os lugares contíguos um dos maiores aglomerados populacionais do concelho.

     Todas as regiões têm normalmente os seus usos e costumes e maneiras de agir, e por ali bem curiosa a forma como se espalhavam as notícias.

     Ávidas de falar, de transmitirem algo que suscitasse conversa e quebrasse a monotonia repetitiva do dia a dia, as pessoas começavam à janela, à porta, à guarita e depois quase corriam pelas quelhas a ver quem primeiro fazia chegar a novidade àqueles pequenos núcleos mais distantes:

     -O tio Francisco da Portela dá dois contos e uma casa a quem casar com a filha!

     -Mulher, cala-te aí! Isso pode lá ser, onde é que já se viu uma coisa dessas!

     -Olhe que é verdade, tia Carolina, foi ele quem o disse na taberna, em alto e bom som.

     -Logo vi, logo vi, só da taberna é que saem essas baboseiras. Decerto que ele já estava com alguma torcida daquelas de ser preciso ir levá-lo a casa.

     -Oh, lá tá você, sabe bem que o tio Francisco não é desses.

     -Então que raio é que lhe passou pela cabeça! Eu tenho sessenta e um anos e nunca tal ouvi. Onde é que já se viu fazer do casamento um negócio assim!

     Lameira acima, fonte abaixo, especadas junto aos portais, as mulheres pareciam dobadouras, ora a levantar o avental, ora a baterem com as mãos nas coxas para evidenciarem os seus comentários.

     Chegavam a estar tempos sem fim carregadas com o cesto ou o cântaro à cabeça, tal era a recompensa que encontravam na conversa:

     -Parece que a rapariga foi vista, aqui já há algum tempo, por aí, no meio do milho com um rapaz do lugar de baixo.

     -Pois é, olha, sabes o que te digo, coitado de quem nasce sem ninguém! A madrasta nunca gostou dela, o pai anda sempre por fora, e agora, para se ver livre dela, faz uma coisa dessas. Se ela fosse minha filha eu dava-lhe o negócio, se quisesse vender, vendesse-se a ele, tal está.

     A filha do tio Francisco, a tal que naquela altura andava de boca em boca, chamava-se Virgínia.

     -Ó mulher, eu quase me custa a crer que ela fosse vista com quem quer que fosse, ela parece uma saca de batatas e é mole como uma cebola podre!

     -Ó mulher, tu sabes bem que toda a vida houve gostos para tudo.

     -Lá isso é verdade. E, diga-se quanto é franco, ela lá para o trabalho não vale um chavo, mas quando via um homem nunca mais tirava os olhos de cima dele.

     Cada uma dizia sua coisa, e ai de quem tivesse a infelicidade de cair naquela teia…

     Na maioria dos casos tratava-se apenas da necessidade de alimentar a conversa, mas noutras existiam mesmo segundas intenções.

     Claro que também apareciam as mais contemplativas, “os tais frades encapotados de diabo”…

     Mas as mentalidades por ali eram mesmo do tempo da pedra lascada.

     Os namoros funcionavam à janela durante um ano ou mais, depois o rapaz ia pedir ao pai dela para o autorizar a namorar dentro de casa, onde estava sempre a mãe por perto. E com tudo isto, para uma rapariga ficar solteira, para não mais casar naquela terra não era preciso a efectivação do ato para aparecer a calúnia, para isso bastava somente que terminasse um namoro de alguns meses.

     O assunto corria rapidamente os circuitos habituais e até era cantando através das pulhas. O enxovalho era tal, que os rapazes não se atreviam nem sequer a olhar para essas vítimas. Qualquer aproximação era terrivelmente censurada, situação em que ninguém queria cair, tantos e tão grandes eram os “carrascos”.

     Claro que, como em tudo na vida havia sempre uma exceção, e o Manuel era um desses.

     Começara logo de pequeno a trabalhar nas cerâmicas, e era por aí que se mantinha, de dia a moldar o barro, a fazer tijolo e telhas de canudo, e de noite vigiando os fornos a cozer esses materiais.

     Tinha quase trinta anos e mulheres só as conhecia ao longe. O seu estado de frequente embriaguez, a sua rude e desmazelada apresentação e fundamentalmente a sua falta de vocação a isso conduziam.

     Quando ouviu os colegas falarem da proposta do tio Francisco, largou a forquilha com a paveia de mato e ficou de tronco erguido, muito atento a escutar:

     -Bem, pensando bem, a coisa até nem é má, não senhor. Dá uma casa, dinheiro, faz a boda e os bens ocupam quase meio lugar.

     -Então ó Manel, esse mato não vem de lá? Daqui a pouco o forno apaga-se!

     -És – estava só aqui a fazer um cigarro.

     -Qual cigarro, qual quê, tu estás mas é já a pensar nas casas e no dinheiro. Vê lá, não deixes fugir aquilo, olha que é um bom partido!

     Tocha entre os lábios, resmungando, metido somente consigo, o Manuel nem se apercebia do gozo dos colegas.

   -Se é assim, amanhã já vou saber da coisa, olá se vou.

     E se bem o pensou, melhor o fez. De manhãzinha, barrado o forno, enquanto os colegas, como era hábito, foram para a tarimba descansar um pouco, o Manuel pôs-se a caminho da casa do tio Francisco.

     Parecia não ver ninguém. A sua maior e única preocupação baseava-se na abordagem do problema. Por mais voltas que desse á cabeça não encontrava forma como começar a conversa.

     -Então Manuel, o que é que te tráz por cá?

     Até os olhos lhe sorriram de contentamento, tal foi o peso que aquelas palavras lhe tiraram de cima.

     -Ó tio Francisco, é por causa aí da, da…

     -O quê, da minha cachopa! O quê, mas tu gostas dela! Olha eu cá por mim, para te ser franco, não vejo mal. És bom rapaz, trabalhador e sabes guardar para amanhã. A casa que eu vos dou, é a da Boa Vista, um bom prédio, como tu aliás muito bem conheces, tem muita terra de amanho, macieira, figueiras touças, e só oliveiras são mais trinta.

     -Sim, sim, ó tio Francisco, eu conheço, eu conheço.

     -O dinheiro também já está ali, contadinho e á parte. Olha lá, e para quando é que tu pensavas o casório?

     -Olha cá por mim não seja a demora. E que diabo, tu também já vais tendo idade. Para os papéis correrem, chegam meia dúzia de dias, ora estamos no princípio do mês, que dizes lá para o princípio do que vem, acho que um mês chega bem para tudo. Olha tu é que sabes, mas para mim, quando menos pessoas melhor, mais te fica.

     -É verdade é, tio Francisco.

     - Então estamos combinados, a partir da amanhã a rapariga vai para lá lavar as casas, e entretanto vou ver se enjorco um pedreiro para lhe dar uma caiadela.

     -Sim, senhor, sim, senhor, tio Francisco.

     Despediram-se e o Manuel, feliz e sorridente, seguiu de novo o caminho de forno.

     Todo ele transpirava de satisfação, tinha sido mais fácil do que ele pensava. Não ia dizer nada aos colegas, haviam de se morder todos, ninguém lhe iria arrancar uma só palavra que fosse.

     E o Manuel, mal chegou ao trabalho, foi imediatamente assaltado pelos colegas, pareciam sanguessugas de volta dele, mas não houve tentativa nem jogo de palavras que o desviasse do seu pensamento, daquilo que tinha prometido a si mesmo. Aliás, ele nem ouvia nada do que lhe dirigiam. A vivência e o contentamento que lhe corriam nas veias eram tais que já se via dentro da casa com o dinheirinho na mão.

     E bem pode dizer-se que tudo correu a seu gosto. Aliás, o senhor Francisco bem se esforçou por isso, desde as coisas da igreja até ao arranjo da boda, tudo foi da sua responsabilidade.

     -Ó mulher, mas eu nunca vi uma coisa assim, o sogro é que arranja tudo, senhor!

     -É bem verdade essa, olha eu cá por mim moro praticamente ali ao pé deles e nunca os vi juntos.

     -Realmente é verdade, já agora só falta ser o pai a metê-los na cama.

     -Olha, mulher, que Deus me perdoe, mas isso é aquilo que ela não precisa que lhe ensinem, porque segundo parece já está bem farta de o fazer.

     Mas, quem não queria saber de comentários era o Manuel. Parecia um peru inchado quando saiu da igreja e foi beber um copo à loja do Turdo.

     -Ao menos estes não enganam ninguém, logo à saída da igreja vai um para cada lado.

     -Isto é como diz o outro, lá se voltam a juntar na boda.

     -Ó mulher, mas muito sinceramente, onde é que já se viu uma coisa assim! Uns noivos nascidos e criados porta com porta casarem sem sequer ao menos terem dado uma fala um ao outro!

     -Olha, sabes o que isto me faz lembrar? É o negócio nas feiras. Aí é que as bestas são vendidas por qualquer preço e vão para onde as tocam.

     O falatório não tinha fim, sucedendo-se com nova roupagem, à medida que os acontecimentos iam tendo lugar.

     -Pode ser que o namoro venha agora, depois do casamento.

     -Sim, não eram os primeiros…

     -Ó mulher, olha, quem não põe as mãos no lume sei eu bem quem é.

     Como em todas as situações havia ideias divergentes, as dos otimistas, as dos pessimistas e as dos esperançosos.

     Por ali não era hábito nem costume gozarem-se grandes férias nem prolongada lua de mel, mas guardavam-se sempre um ou dois dias a seguir ao casamento. Mas para o Manuel não fora assim, no dia seguinte ao casamento, enquanto a mulher ficou entregue à lavagem da louça, ele, ao nascer do sol, já estava no barro.

     -Então ó Manuel, valha-te um burro, fizeste mal não sair da igreja e vir trabalhar!

     -Só não o fez para ir receber as massas do sogro, quando não…

     -É o que faz ter o trabalho adiantado, não cansa tanto!

     O Manuel fingiu não ouvir, nem compreender onde os colegas queriam chegar.

     -Virgínia, o casamento fez-te bem, pareces outra!

     E na verdade assim era. A Virgínia estava totalmente diferente, fazia tudo em casa e ainda ia aos dias fora.

     Quem não via isso era o Manuel, que levava o tempo a acusá-la de não fazer nada e a chamar-lhe nomes difamatórios, vendo-lhe amantes por tudo quanto era sítio.

     De início, a Virgínia não ligou, a sua consciência não a acusava de nada.

     -Sim senhor, ninguém diria, trabalha, sorri e o marido nunca andou tão limpo!

     -É verdade, olha que ela agora até vira a cara ao lado quando passa por algum homem! Se uma pessoa não soubesse o que se passou, quase nem acreditava.

     E na verdade assim era.

     Enquanto a Virgínia passara facilmente de lobo a cordeiro, com o Manuel passara-se precisamente o inverso.

     -Então o malandro não deu em zupá-la todos os dias!

     -Ele tinha-o dito.

     -Sim, ele disse que o fazia, mas era para ela se emendar.

     -Mas ela, se teve algum erro, foi em solteira, portanto…

     -Está bem, está bem, mas ele é que não compreende nada disso.

     E perante os maus tratos e as permanentes injúrias, o comportamento da Virgínia alterou-se profundamente.

     Dava o corpo a qualquer gato sapato que lhe aparecesse.

     -Ó mulher, aquilo já lá estava no sangue dela.

     -Tem razão, comadre, eu também sou da sua opinião.

     -Olha, eu não sou, a culpa é toda dele, ela deu provas, ele é que não a ajudou.

     -Mas como é que ele a podia ajudar, ele nunca prestou para nada.

     Dizia-se, desdizia-se, o importante era dar opiniões, manter conversa.

     -Havia de ser comigo, o rais ma parte se não lhe fizesse o mesmo.

     -Oh, ela tem lá força para isso, ela nem foge quando o malandro a está a zupar!

     -Realmente ela nunca foi bonita, mas agora está mesmo transformada num farrapo.

     -Numa miséria comadre, numa miséria! Cá por mim nunca vi relaxamento tão grande.

     Uns duma maneira, outros de outra, todas as opiniões se estavam a conjugar no sentido de que a vítima do “famigerado negócio” era a Virgínia.

     E o seu desmazelo e descontrolo chegaram a tal que dava o corpo indiscriminadamente e tinha os filhos de qualquer maneira e em qualquer lado! Um deles foi mesmo aparado pelo chão, nasceu junto de uma árvore, em pleno mercado, quando se deslocara à Vila para fazer compras.

                                                                                              

                                                                                                             Sá Flores

 

Ditos, Ditados e Provérbios Portugueses

  

Quem corre por gosto não cansa

 

 

Sugestão de Culinária

 

Espetadas com salada verde e carnes frias

Ingredientes: 

-espetadas de peru

- alface

- cenoura

- beterraba

- pepino

- 1 limão

- fatias de queijo

- fatias de fiambre de frango

- 1 queijo fresco

- azeite

- sal

- azeitonas
 

Preparação:

 

Passo 1: Grelhar as espetadas. Fazer uma saladinha com alface, cenoura e beterraba ralada e pepino aos quadradinhos. Temperar.

 

Passo 2: No prato dispor a salada, as fatias de queijo e de fiambre, azeitonas, as espetadas e um belo queijinho fresco temperado com pimenta a gosto.

 

 

Poesia

 

“Vira-te ó Rosa

Se não viro-me eu

Teu pai é meu sogro

Teu amor sou eu.

 

Teu amor sou eu

Tu és muito minha

Tua mãe é sogra

E tu és rainha.

 

E tu és rainha

Dá-me a tua mão

Ó linda rosinha

Do meu coração.”

                                                                         Sá Flores

 

Sugestão de Fim de Semana / O que visitar na minha Cidade?

 

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Foto da Semana

 

Apresentação da peça de teatro “Os Nove Mandriões”, pelos alunos da

Universidade da Terceira Idade de Ferreira do Zêzere.

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publicado por IDADE MAIOR às 10:19

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