UNIVERSIDADES SÉNIORES: ACONTECIMENTOS, TRABALHOS, ETC.

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Mai 15

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Estórias e Contos Tradicionais Portugueses

 

Esta semana a nossa escolha recai sobre um escrito , poeta, prosador, natural do Norte de Portugal, Martinho de Anta que prefacia assim a segunda edição do seu livro “Novos Contos da Montanha”, em 1945:

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«Querido Leitor:

Escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste livro. (…)»

Na sua obra perpassam valores humanistas que nos emocionam pela veracidade, humildade e lucidez .

Miguel Torga

 

 

 

 

Ladino

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Grande bicho, aquele Ladino, o pardal! Tão manhoso, em toda a freguesia, só o padre Gonçalo. Do seu tempo, já todos tinham andado. O piolho, o frio e o costeio não poupavam ninguém. Salvo-seja ele, Ladino.

Mas como havia de lhe dar o lampo, se aquilo era uma cautela, um rigor!... E logo de pequenino. Matulão, homem feito, e quem é que o fazia largar o ninho?! Uma semana inteira em luta com a família. Erguia o gargalo, olhava, olhava, e - é o atiras dali abaixo!... A mãe, coitada, bem o entusiasmava. A ver se o convencia, punha-se a fazer folestrias à volta. E falava na coragem dos irmãos, uns heróis! Bom proveito! Ele é que não queria saber de cantigas. Ninguém lhe podia garantir que as asas o aguentassem. É que, francamente, não se tratava de brincadeira nenhuma!

Uma altura! Até a vista se lhe escurecia... O pai, danado, só argumentava às bicadas, a picá-lo como se pica um boi. Pois sim! Ganhava muito com isso. Não saía, nem por um decreto. E, de olho pisco, ali ficava no quente o dia inteiro, a dormitar. Pobre de quem tinha de lho meter no bico...

Contudo, um dia lá se resolveu. Uma pessoa não se aguenta a papas toda a vida. Mas não queiram saber... Quase que foi preciso um pára-quedas.

Mais tarde, quando recordava a cena, ainda se ria. E deliciava-se a descrever as emoções que sentira. Arrepios, palpitações, tonturas, o rabinho tefe-tefe. E a ver as coisas baças, desfocadas. Agoniado de todo! Valera-lhe a santa da mãe, que Deus haja.

- Abre as asas, rapaz, não tenhas medo! Força! De uma vez!

Tinha de ser. Fechou os olhos, alargou os braços, e atirou o corpo, num repelão... Com mil diabos, parecia que o coração lhe saía pelos pés! Ar, então, viste-o.

Deu às barbatanas, aflito.

- Mãe! 

Mas afinal não caía, nem o ar lhe faltava, nem coisíssima nenhuma. Ia descendo como uma pena, graças aos amortecedores. Mais que fosse! No peito, uma frescura fina, gostosa... Não há dúvida: voar era realmente agradável! E que bonito o mundo, em baixo! Tudo a sorrir, claro e acolhedor...

A mãe, sempre vigilante e mestra no ofício, aconselhou-lhe então um bonito antes de aterrar. Dar quatro remadas fundas, em cheio, e, depois, aproveitar o balanço com o corpo em folha morta, ao sabor da aragem...

Assim fez. Os lambões dos irmãos nem repararam, brutos como animais! A mãe é que disse sim senhor, com um sorriso dos dela...

E pousou. Muito ao de leve, delicadamente, pousou no meio daquela matulagem toda, que se desunhava ao redor duma meda de centeio.

Terra! Pisava-a pela primeira vez! Qualquer coisa de mais áspero do que o veludo do ninho, mas também quente e segura. Deu alguns passos ao acaso, a tirar das cócegas nos dedos um prazer de que ainda tinha saudades. Depois, comeu. Comeu com fome e com gula os grãos duros que o sol esbagoava das espigas cheias. Numa bicada imprecisa, precipitada, foi a ver, engolira uma pedra. Não lhe fez mal nenhum. Pelo contrário. Ricos tempos! Desde o entendimento ao estômago, estava tudo inocente, puro. Fosse agora, e era indigestão pela certa. Arrombadinho de todo! Por isso fazia aquela dieta rigorosa...

Falava assim, e ria-se, o maroto. Nem pejo tinha da mocidade, que o ouvia deslumbrada.

- A vergonha é a mãe de todos os vícios - costumava dizer.

E tanto fazia a Ti Maria do Carmo pôr espantalho no painço, como não. Ladino, desde que não lhe acenassem com convite para arrozada numa panela, aos saltinhos ia enchendo a barriga. Depois, punha-se no fio do correio a ver jogar o fito, como quem fuma um cigarro. Desmancha-prazeres, o filho da professora aproximava-se a assobiar... Ah, mas isso é que não. Brincadeiras com fisgas, santa paciência. Ala! Dava corda ao motor, e ó pernas! Numa salve-rainha, estava no Ribeiro de Anta. Aí, ao menos, ninguém o afligia. Podia fartar-se em paz de sol e grainha.

- Que mais quer um homem?! 

- O compadre lá sabe... 

- Bem... Tudo é preciso... São necessidades da natureza... Desde que não se abuse... 

E continuava, muito santanário, a catar o piolho. Depois, metia-se no banho. 

- Rica areia tem aqui o cantoneiro, sim senhor! 

Micas concordava. E só as Trindades o traziam ao beiral da Casa Grande. 

Adormecia, então. E a sono solto, como um justo que era, passava a noite.

Acordava de madrugada, quando a manha rompia ao sinal de Tenório, o galo. Isto, no tempo quente.

Porque no frio, caramba!, ou usava duma táctica lá sua, ou morria gelado. Aquelas noites da Campeã, no Janeiro, só pedras é que podiam aguentá-las.

E chegava-se à chaminé. Com o bafo do fogão sempre a coisa fiava de outra maneira.

Ah, lá defender-se, sabia! A experiência para alguma coisa lhe havia de servir. Se via o caso mal parado, até durante o dia punha o corpo no seguro. Bastava o vento soprar da serra. Largava a comedoria, e - forro da cozinha! Não havia outro remédio. Tudo menos uma pneumonia!

A classe tinha realmente um grande inimigo - o inverno. Mal o Dezembro começava, só se ouviam lamúrias.

- Isto é que vai um ano, Ti Ladino!

A Cacilda, com filhos serôdios, e à rasca para os criar.

- Uma calamidade, realmente. Mas vocês não tomam juízo! É cada ninhada, que parecem ratas!

- O destino quer assim...

- Lerias, mulher! O destino fazemo-lo nós... 

Solteirão impenitente, tinha, no capítulo de saias, uma crónica de pôr os cabelos em pé. Tudo lhe servia, novas, velhas, casadas ou solteiras. Mas, quando aparecia geração, os outros é que eram sempre os pais da criança.

- Se todos fizessem como eu...

- Ora, como vossemecê!... Cala-te, boca. Mudemos de conversa, que é melhor... Segue-se que não sei como lhes hei-de matar a fome... - gemia a desgraçada.

- Calculo a aflição que deve ser...

E o farsante quase que chorava também. Quisesse ele, e a infeliz resolvia num abrir e fechar de olhos a crise que a apavorava. Pois sim! Olha lá que o safado ensinasse como se ia ao galinheiro comer os restos!... Enchia primeiro o papo e, depois, a palitar os dentes, fazia coro com a pobreza.

- É o diabo... Este mundo está mal organizado...

Um monumento! Como ele, só mesmo o padre Gonçalo. Quanto maior era a miséria, mais anediado andava.

- Aquilo é que tem um peito! Numas brasas, com uma pitada de sal...

Mas já Ladino ia na ponta da unha. Não queria quebrar os dentes de ninguém. Carne encoirada, durásia... E acrescentava:

- Isto, se uma pessoa se descuida, quando vai a dar conta está feita em torresmos. Que tempos!

O mais engraçado é que já falava assim há muitos anos, com um sebo sobre as costelas, que nem cabrito desmamado.

De tal maneira, que o Papo Magro, farto daquela velhice e daquelas manhas, a certa altura não pôde mais, e até foi malcriado.

- Quando é esse funeral, ti Ladino?

Mas o velho raposão, em vez de se dar por achado, respondeu muito a sério, como se fizesse um exame de consciência:

- Olha, rapaz, se queres que te fale com toda a franqueza, só quando acabar o milho em Trás-os-Montes.

 Miguel Torga, Os Bichos 

  

Ditos, Ditados e Provérbios Portugueses

 

Provérbios ligados a animais-pesquisa feita por Natália Machado, aluna da disciplina de Comunicação na UGIRT.

 

“Gato escaldado de água fria tem medo”

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 “A cavalo dado não se olha ao dente”

 

“Todo o burro come palha, a questão é saber dar-lha!”

 

“Cão que ladra não morde”

 

“Quem não tem cão, caça com um gato!”

 

“Quem tem burro e anda a pé, mais burro é!”

 

“Em rio que tem piranhas jacaré nada de costas”

 

“Cada macaco no seu galho”

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Sugestão de Culinária

 

Bola de Carne da CAROLINA!

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Ingredientes:

500 grs de farinha de trigo

120 grs de fermento padeiro

120 grs de manteiga derretida

3 ovos

3 dl de leite morno                                

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Preparação:

Numa tigela põe-se a farinha e no meio faz-se uma cova e pôe-se a manteiga que foi derretida em banho maria. Os ovos inteiros e o fermento derretido no leite morno.

Bate-se a manteiga com a batedeira ou à mãe.

Tapa-se a tigela com um pano e deixa-se levedar umas horas. (2 h + ou -)

Depois forra-se um tabuleiro com manteiga e polvilhado com pão ralado.

Distribui-se metade da massa por cima o fiambre, o salpicão e o toucinho fumado.

A seguir novamente a massa e vai ao forno.

Também se pode aproveitar carne de galinha ou de coelho.

 

 

Poesia

 

Só eu Sinto Bater-lhe o Coração

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Dorme a vida a meu lado, mas eu velo.

(Alguém há-de guardar este tesoiro!)

E, como dorme, afago-lhe o cabelo,

Que mesmo adormecido é fino e loiro.

 

Só eu sinto bater-lhe o coração,

Vejo que sonha, que sorri, que vive;

Só eu tenho por ela esta paixão

Como nunca hei-de ter e nunca tive.

 

E logo talvez já nem reconheça

Quem zelou esta flor do seu cansaço...

Mas que o dia amanheça

E cubra de poesia o seu regaço!

 

Miguel Torga, in 'Diário (1946)'

 

 

Mãe

Mãe:

Que desgraça na vida aconteceu,

Que ficaste insensível e gelada?

Que todo o teu perfil se endureceu

Numa linha severa e desenhada?

 

Como as estátuas, que são gente nossa

Cansada de palavras e ternura,

Assim tu me pareces no teu leito.

Presença cinzelada em pedra dura,

Que não tem coração dentro do peito.

 

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.

Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.

Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes

Por detrás do terror deste vazio.

 

Mãe:

Abre os olhos ao menos, diz que sim!

Diz que me vês ainda, que me queres.

Que és a eterna mulher entre as mulheres.

Que nem a morte te afastou de mim!

 

Miguel Torga, in 'Diário IV'

 

Viagem

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Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé de marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

O mar...

(Só nos é concedida

Esta vida

Que temos;

E é nela que é preciso

Procurar

O velho paraíso

Que perdemos).

Prestes, larguei a vela

E disse adeus ao cais, à paz tolhida.

Desmedida,

A revolta imensidão

Transforma dia a dia a embarcação

Numa errante e alada sepultura...

Mas corto as ondas sem desanimar.

Em qualquer aventura,

O que importa é partir, não é chegar.   

Miguel Torga 

 

Sugestão de Fim de Semana / O que visitar na minha Cidade?

  

Roteiro: “Nos Trilhos de Torga”

9:0 h-Rio Tinto-Vila Real-S.Leonardo da Galafura-S.Martinho de Anta-Amarante-Rio Tinto. 20:0 h.

Do tanto que há para apreciar, para extasiar nossos olhos, encher nossa alma de horizontes de múltiplos azuis nesta terra, que é a nossa, neste Portugal de maravilhosas paisagens, escolhemos Vila Real, S. Leonardo da Galafura, S. Martinho de Anta … para uma simples homenagem ao grande escritor-poeta que foi e, é , Miguel Torga!

Fomos sentir no seu chão, fomos respirar no seu ar, fomos olhar a sua paisagem…

E … Valeu a pena!

Fomos felizes!

Um Grupo de 32 pessoas sorridentes, alegres, felizes pela partilha de tamanha beleza!

Somos os professores, directores, alunos e alunas da UGIRT !

E agora deliciem-se como NÓS!

 

Professor de Património Cultural e aluna Carolina Moreira na Estação de Serviço de Penafiel – 1ª paragem

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No autocarro, muita animação

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 Chegada ao Palácio de Mateus!

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A nossa Presidente e Coordenadora da UGIRT

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 As traseiras do Palácio!

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Nos jardins do Palácio os nossos alunos masculinos estavam animados a descobrir as diferentes ervas aromáticas

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 O Palácio de Mateus, com todo o nosso grupo, ganhou ainda mais brilho!

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 A maravilhosa vista do Restaurante onde almoçamos, S. Leonardo da Galafura!

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 A Isabel e o Fernandes disfrutando dos ares e da beleza da Galafura!

Usufruindo da paisagem…

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 Simplesmente BELO!

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Lendo o poema !

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Em S.Martinho de Anta, Terra natal de Miguel Torga, Espaço lindo para a sua obra, concebido pelo Arquiteto Eduardo Souto de Moura

 

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Comunicação!

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O Diretor do Espaço Miguel Torga recebeu-nos muito bem!

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Em Amarante já quase a terminar este dia Fantástico!

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Para Mais Tarde Recordar…

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 O Autocarro aguarda-nos! Regressamos a Rio Tinto!

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Foto da Semana

 

Palácio de Mateus!

 

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publicado por IDADE MAIOR às 16:13

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